domingo, 16 de setembro de 2007

Pau-ferro

Convivi com meu avô durante muitos anos. Talvez eu tenha sido um dos netos que mais esteve com ele ao longo dos anos. Quando nasci em 1954, meus pais moravam em Macapá, onde meu avô também morava. Meu pai, Edwal da Silva Trindade, foi trabalhar para uma empresa brasileira-americana que explorava manganês em Serra do Navio, no centro do Território do Amapá. Mudamos-nos para lá em 1958 e meu avô já trabalhava lá como mecânico, operador de grupo gerador de energia elétrica. Meu avô morava numa casa da vila primária (a cidade era construída pela mineradora -- Icomi, e era dividida em vilas primária, intermediária e staff). Lembro-me que os fundos da casa era uma verdadeira oficina, misto de carpintaria e serralheria. Meu avô tinha uma bicicleta alemã, com freios no pedal, a qual quando nova, tivera um motor à gasolina que a tracionava pelo pneu da frente. Não cheguei a ver este equipamento, mas me fascinava meditar como funcionava.

Nunca me esqueço d’uma estória interessante que meu pai contou numa roda de amigos: - Na época da guerra, faltava muita coisa. Como as estradas de antigamente eram os rios, motor de popa era um equipamento essencial, principalmente para meu avô que trabalhava como piloto e levava muita gente rio acima e rio abaixo no Amapá. Ele fazia de dois motores quebrados um que funcionava. Certa vez, ele não conseguiu peças para um motor alemão. O problema estava no virabrequim desgastado. Como era também carpinteiro e conhecia uma madeira chamada pau-ferro (conheço esta madeira – é muito dura mesmo), ele tentou construir um virabrequim com esta madeira. Meu pai comentou que alguns conhecidos viram meu avô aquecer e dar têmpera na madeira moldada para a função que faltava no motor. Riam como se fosse piada de português. Mas pergunto: e se funcionasse? Os maiores inventores dos quais já li biografias faziam coisas que as pessoas comuns não pensavam em fazer. E meu avô não era uma pessoa comum.

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