domingo, 16 de setembro de 2007

O homem político

Quando me tornei jovem e ingressei na universidade, tive meu avô como companheiro de morada por alguns meses. Meus pais tinham se transferidos para Monte Dourado e ficamos eu, meu irmão Paulo e meu avô morando na nossa casa da Travessa Curuzú em Belém. Invariavelmente, sentávamos de noite na frente de casa e lá conversávamos muito. Como comentei antes, considero que meu avô foi um político. Não um político ativo, que participava de eleições e que tenha representado o povo. Mas um político que debatia com quem quisesse a política brasileira, americana, soviética, chinesa, etc. Tinha um conhecimento político impressionante, que buscava no rádio todas as noites. Todas as noites ele tinha que escutar os noticiários pelo mundo afora. Na Serra do Navio ninguém podia falar alto na sala quando escutava a Voz da América, a Rádio Moscou, a Rádio Pequim, a Deutche Velle, a BBC de Londres, etc. Ele não ligava muito para a PRC-5. Preferia a Rádio Nacional, porque falava do Juscelino Kubitschek . Quando vocês ouviram falar de guerra fria? Meu avô já falava disso quando o nome nem era este! Kruschev, Mao Tsé-Tung, Kennedy, Vargas, Salazar (ditador português que meu avô odiava muito!), Mísseis em Cuba, Baia dos Porcos, Sputnik, etc, etc, ouvi pela primeira vez na vida pela boca do meu avô. Agora pergunto, ele era ou não um político? Não justifica que combatera em três revoluções?

Certa vez perguntei ao meu avô: Vô, como o senhor chegou ao Brasil? Porque veio pra cá? Segurem-se firmes, porque o que vou relatar é uma aventura que parece mentira. Mas é pura verdade, porque meu avô foi dono de uma reputação impecável. Vou tentar contar como ouvi dele, com um português meio que corrigido no linguajar de hoje, mas que não machuca nenhuma cena, caso vocês fechem seus olhos e as imaginem.

“Eu fui criado pelo meu avô. Trabalhava feito uma besta, amassando uvas, fazendo tonéis e vendendo na cidade do Porto(...). Não cheguei à conhecer bem meus pais. Morrem ainda jovens¹ (...). Assim que pude, fui servir o exército no Porto. Lá fui envolvido numas revoltas e fui parar, uma vez em Angola, e d’outra em Moçambique. Nem bem voltamos pra Portugal na primeira vez, estoura novamente outra revolta e, preso novamente, fui pra Moçambique. Sofremos muito. Fomos largados lá, vivendo no meio dos negros, sem comida, sem nada. Quando voltava da segunda vez, nosso navio parou na Madeira e vieram nos falar que havia outro navio indo pro Brasil, porto de Santos, e que lá estavam precisando de trabalhadores e que a vida era muito boa, e acabei mudando de navio e fui parar em Santos. Lá, trabalhei como carpinteiro. Estive fazendo uns trabalhos em São Paulo. Fiz um balcão para um comerciante. Depois voltei pra Santos e procurando trabalho, soube que estavam pegando gente pra trabalhar no interior do Paraná, e pra lá fui de trem. Quando chegamos fomos surpreendidos: estavam nos dando armas pra lutar por uma causa². Marchamos até o interior do Mato Grosso, onde fomos rendidos e enviados de volta pra Santos. Lá, nos fizeram de cativos em porão de navio. Levamos meses navegando. Sei que paramos em Recife, onde desceram algumas pessoas. Minhas pernas incharam que não podia andar. Fui deixado no Amapá, onde a Nazareth me tratou e me curou com folha de embaúba.”

O senhor matou alguém? - "Não sei. Mandavam atirar numa direção, e a gente fazia isso."

Porque o senhor não voltou pra Portugal? - “Eu gostaria. Tenho muita vontade. Mas não tenho dinheiro.”

O senhor sendo solteiro, como se virava na África? – “Tinha umas negras que faziam uns favoreszinhos pra nós, ah, ah, ah. Formava fila do lado de fora da cabana.”. Não podia deixar de falar nisso. Ele gostava demais de uma rapariga. Se gostava?!

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¹) Pergunto: - teria sido de gripe espanhola, para morrerem os dois juntos?²) Revolução Paulista, Tenentista de 1924? Coluna Prestes? Talvez uma cronologia possa responder em qual revolução o Abrunheiro se meteu. Alguém se candidata à fazer e colocar no blog?

Pau-ferro

Convivi com meu avô durante muitos anos. Talvez eu tenha sido um dos netos que mais esteve com ele ao longo dos anos. Quando nasci em 1954, meus pais moravam em Macapá, onde meu avô também morava. Meu pai, Edwal da Silva Trindade, foi trabalhar para uma empresa brasileira-americana que explorava manganês em Serra do Navio, no centro do Território do Amapá. Mudamos-nos para lá em 1958 e meu avô já trabalhava lá como mecânico, operador de grupo gerador de energia elétrica. Meu avô morava numa casa da vila primária (a cidade era construída pela mineradora -- Icomi, e era dividida em vilas primária, intermediária e staff). Lembro-me que os fundos da casa era uma verdadeira oficina, misto de carpintaria e serralheria. Meu avô tinha uma bicicleta alemã, com freios no pedal, a qual quando nova, tivera um motor à gasolina que a tracionava pelo pneu da frente. Não cheguei a ver este equipamento, mas me fascinava meditar como funcionava.

Nunca me esqueço d’uma estória interessante que meu pai contou numa roda de amigos: - Na época da guerra, faltava muita coisa. Como as estradas de antigamente eram os rios, motor de popa era um equipamento essencial, principalmente para meu avô que trabalhava como piloto e levava muita gente rio acima e rio abaixo no Amapá. Ele fazia de dois motores quebrados um que funcionava. Certa vez, ele não conseguiu peças para um motor alemão. O problema estava no virabrequim desgastado. Como era também carpinteiro e conhecia uma madeira chamada pau-ferro (conheço esta madeira – é muito dura mesmo), ele tentou construir um virabrequim com esta madeira. Meu pai comentou que alguns conhecidos viram meu avô aquecer e dar têmpera na madeira moldada para a função que faltava no motor. Riam como se fosse piada de português. Mas pergunto: e se funcionasse? Os maiores inventores dos quais já li biografias faziam coisas que as pessoas comuns não pensavam em fazer. E meu avô não era uma pessoa comum.

O que Judith nos conta

Este é o depoimento mais atual de minha mãe, Judith Abrunheiro Trindade (nome de solteira foi Judith de Moura Abrunheiro), sobre a vida de meu avô.

"Quando papai deixou Portugal, nossa irmã Virgínia tinha 2 anos. Falava muito da filha que tinha lá deixado. Veio para o Brasil mas não sei ao certo como foi e em que ano aconteceu. Falava muito que tinha participado da revolução de 1924¹ e que foi deportado pelo governo do Brasil para o Oiapoque junto com outros colegas portugueses². Depois de um tempo, o governo enviou um navio para levar quem quisesse de volta à Portugal. Ele não quis voltar e foi para a cidade do Amapá, onde trabalhou como carpinteiro para o Sr. Vicente Pontes (parente do compadre Mário Pontes), quando deve ter conhecido minha mãe, Maria de Nazareth, casando-se em 1930. O pai da mamãe era criador de gado. Nasci no lugar chamado Queimadas em 1930. Viemos para Belém em 1932, onde moramos na Cidade Velha. Aqui papai trabalhou para um português do qual não gostava e veio um dia à se aborrecer com ele e por causa desse desentendimento foi preso. Minha mãe foi até o governador Barata que o mandou soltar. Fui batizada em Belém, na Igreja da Sé em 1932. Voltamos para as fazendas, Calçoene, em 1938, onde papai foi trabalhar com o compadre ‘Tonho’ e Vicente Sobrinho em Lago Novo. Mamãe morreu em 1943. Depois fomos para a cidade do Amapá em 1944, e depois para Macapá. Papai trabalhou na construção da ponte de Tartarugalzinho em 1952. Foi para lá com a D. Fausta e ficamos eu e a Rosilda, em Macapá.”

¹) Quem se candidata à pesquisar este fato? Como usaram portugueses neste evento? Noutra postagem vou falar das aventuras que meu avô me contou.
²) Fato interessantíssimo!

A origem


De acordo com um documento consular – antigo passaporte, José Gomes Abrunheiro nasceu na freguesia de Antuzedes, conselho de Coimbra, Portugal, no dia 8 de dezembro de 1900 e era filho de Antonio Abrunheiro e Joaquina Gomes Sêca.

Sua provável certidão de batismo nos indica que, aos dois dias do mês de novembro do ano de mil novecentos e um, na igreja Paroquial de Santo Agostinho de Antuzede, Conselho e Diocese de Coimbra, foi batizado solenemente pelo pároco Abílio Adolpho Guerra Ozório um individuo do sexo masculino a quem o pároco deu o nome de José (originalmente Jozé), que nasceu na freguesia de Antuzede no dia dez de Setembro deste dito ano pelas doze horas e um quarto da madrugada. Filho legitimo de Antonio Abrunheiro, trabalhador, natural do lugar da Geria da mesma freguesia de Antuzede, e de Maria Magdalena, natural de Cidreira também desta freguesia de Antuzede, de ocupação domestica, e neto paterno de José Abrunheiro e Maria Balbina. Foram padrinhos José Marques de Campos, casado, proprietário, e Conceição da Silva Rei, esposa do padrinho, de ocupação domestica e estrangeira.

Nosso ponta-pé...

Convivi longos anos com meu avô e guardo muitos momentos bons que tive com ele. Junto com meu pai, me deu forte direcionamento de vida. Como meu pai o chamava, era conhecido como "Zé Português", dono de uma reputação fora de qualquer dúvida. Homem de conhecimento e habilidades sem iguais, fez de tudo na sua vida: carpinteiro, marceneiro, padeiro, mecânico, soldado, político.

Político? Sim, seu "Zé Português" foi político e foi deportado três vezes. Ora vejam, ser deportado uma vez apenas já seria um feito e tanto para um ser normal, imaginem três vezes! Eu não consigo imaginar a qual velocidade corria o sangue nas veias deste moço para se meter em tanta confusão!

Fiz este espaço para reconstituir sua história, com objetivo de conhecer mais de sua vida e compartilhar o que sabemos com todos nossos parentes e amigos, no Brasil e em Portugal. Assim, encorajo e peço a todos que dêem sua contribuição para estas páginas. Não precisa ser fato novo ou desconhecido de muitos. Pode ser apenas uma confirmação ou correção do que falamos.

Assim, os fatos aqui colocados podem ser contestados, confirmados ou esclarecidos, de forma que tenhamos um relato o mais fiel possível. Os comentários inseridos serão lidos, respondidos e terão as informações corrigidas nos finais de semana.